... pude finalmente confirmar o que apenas ouvia. De perto as coisas ganham vida. Materializamos as idéias, e passamos a certificar nossas crenças. Foi isso o que aconteceu após minha passagem pela seca nordestina (ou parte dela), em janeiro de 2009. Uma viagem, sem dúvida, marcante.
***
O contraste dá o tom. Em meio à terra seca, casinhas coloridas como enfeites de bolo, encaixadas umas às outras, num desnível inusitado. Raízes nascem nas telhas. Nos fios, ninhos de palha ... como que se postos à mão. Dando vida onde não havia. Da janela, rostos curiosos mantêm-se atentos, notando a novidade no ar. Fazendo da rua uma novela. Sem começo, meio, fim ou lugar. Apenas sendo. Enquanto isso, sinetas pedem passagem. Gados tocados aos gritos. Num vai-e-vem diário. Numa tormenta diária. Uma vida diária.
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Não tem água
Mas a TV continua ligada
Saciando a sede
Desviando a espera de melhora
A revolta já sem hora
Desliga isso agora
Fecha a porta
Vai à luta
Não tem asfalto
Não tem escola
Não tem respeito
Mas tem coca-cola
Novela, big brother
Que mundo é esse cara?
O esperto na TV, que tem tudo
Ensina o pobre na sala, que não tem nada
Deixa ele fazer o que quer
Deixa ele voltar a ser o que é
***
Vida Seca
Seca a sede de melhora
Tocando a boiada
Caindo de lado, de fome
Esse homem, não tem igual
Quero ver quem é capaz
De fazer um terço do que ele faz
Tu não faz não mermão
Faz não
Busca a água na fonte
Traz pra casa
Pega o filho numa mão
Na outra a enxada
E vai pra roça
De novo
O mundo não é esse que tu vive
Não é não
Dá um pulo lá no sertão
Do teu país, é o teu país
Mas não, você continua aí
Olhando pro espelho
E vendo tudo na televisão
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Que coisa linda
A lua cheia no sertão
Casinhas feitas à mão
Como caixinhas de isopor
Pintadas de cor em cor
Que coisa linda
É ver que a nossa terra
É mesmo feita pro amor
Pra ver o gado, pra ver o lago
E sentir que isso tudo tem valor
Que coisa linda
Se sentir assim, mais parte do todo
Saber que sou carioca, e sou do povo
Nascido na Tijuca, de corpo nu
E agora passado por Altinho, Murici, Porto e Caruaru
Que coisa linda
Meu Brasil, meu tudo, meu nada
Minha terra, meu big ben
E quantos ritmos tem
Canto frevo, xote, maracatu e baião
Canto rock, reggae ou samba-canção
Bom mesmo é ser daqui
Dessa terra, de qualquer parte dessa esfera
Ser carioca da terra azul
Ser da América do Sul
***
Que sol é esse que brilha aqui
Que seca a carne
E faz da sombra outra gente
Que lua é essa que tem aqui
Que muda o rumo da noite
E faz o sonho presente
Que lugar é esse que inspira
Que respira e exporta arte
E que aporta em toda parte
Isso é Sertão
É nordeste
É cabra-da-peste
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
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