quarta-feira, 26 de março de 2008

Uma noite em São Tomé

Já passava das dez em São Tomé das Letras. Devo admitir que não esperava muito mais daquela noite. Mas como de costume, ainda havia tempo para mais uma cerveja.
O inusitado é camaleônico. Não se apresenta da mesma forma. E dessa vez adentrou uma espelunca em frente à principal (e única) praça da cidade. O lugar estava cheio. As figuras que lá estavam, miscigenavam a paisagem humana. Em cima de engradados de Malt 90, cobertos com folhas de compensado, um jovem cantor com um violão de aço, amplificado por cansados equipamentos de som, cantava batidas músicas brasileiras.
Decidi ficar e acompanhar tudo do fundo do bar, já que por algum motivo, percebia que aquilo poderia tornar-se interessante.
De repente um homem se aproxima, e com uma "casinha" artesanal na mão, feita de pedras São Tomé, oferece: - Cinco merréis. Tomei um susto, mas de cara recusei. Até porque por toda cidade vendiam a um. - Três entao. - Um só! – insistiu um tanto furioso. Continuei recusando. Foi quando o “Casinha”, já impaciente, falou: - Então segura pra mim que vou ao banheiro. Partiu escorando-se pelas paredes rumo à porta mais próxima. Até onde contei se passaram uns dez minutos. Foi quando perdi a paciência, larguei a casinha na mesa mais próxima e busquei uma nova posição no lugar. Depois de meia hora, avistei-o azucrinando outras pessoas em outro ponto do bar, tendo abandonando a referida casinha na mesma mesa que deixei.
O show continuava fervendo. Foi quando entrou em cena o "flautista". Um sujeito cabeludo, um tanto castigado pelo tempo e pelo estado ébrio. Flauta em punho, ar soberano, confiança plena. Ele parou em frente ao palco e começou a tocar, acompanhando as canções interpretadas pelo cantor. Mas nem se ele tivesse pulmão de aço conseguiria ser escutado. O som do lugar estava altissimo. Ele não passava de mais um figurante no meio de toda aquela gente. Mas quase se tornou protagonista, quando insistiu num ato um tanto quanto curioso, em fechar a braguilha da calça no meio do salão, num processo que contou com umas cinco tentativas, sempre, claro, apoiado pelo seu amigo "professor". Este, que seria o último personagem a entrar em cena.
Ele foi anunciado pelo cantor. Neste momento realmente acreditei que a noite ganharia em qualidade musical. Afinal de contas foi anunciado assim: “- Gostaria de chamar, pra cantar pra gente, o meu grande professor!". Para minha surpresa, o sujeito que vai para o palco, é o mesmo que estava, desde o início do show, tentando consertar as cordas de outro violão, em uma cena de pura comoção, tamanha a dificuldade encontrada. Sem ficar atrás de seus companheiros, no que tange o estado etílico, ele subiu ao palco e cantou junto com seu pupilo mais algumas canções, fazendo assim a felicidade geral do público, que a esta altura já estava em êxtase.
O inusitado é assim. Está por aí, por aqui. Anda por becos sem deixar rastro. Mas quando você menos espera, ele pode aparecer bem na sua frente.