Tendemos sempre a nos revoltar quando nos deparamos com fatos como este do menino João Hélio ... e a revolta nos faz pensar com imediatismo. É certo que nosso desejo de cura da violência é imediato. Mas as causas e principalmente a cura não são. Difícil é convencer as pessoas, principalmente as envolvidas, a pensarem assim. Mas o que vemos ao longo desses anos de caos urbano são os mesmos sentimentos de revolta e os mesmos imediatismos que só prorrogam o próximo ato. Que tal deslocar a direção dessas reações, e virar o foco para nós mesmos? Será que já não é a hora de discutir a nossa própria maneira de lidar com as injustiças. É fácil ver um rosto distorcido de raiva, de revolta e indignação, perante mortes crueis e injustas. Quem não fica assim? Mas quando falamos em combater a miséria e a indigência desses candidatos a "assassinos", muitos desses rostos mantém-se intactos. Nem um só desfalque de estética. Falo do individualismo, do egoísmo. No país "em desenvolvimento" capitalista, que vivemos, não existe milagre do crescimento. A renda não vai multiplicar. Ou paramos com essa idiotice individualista, ou vamos nos afundar mais ainda na lama social. Todo mundo quer o país menos pobre, mas ninguém ousa arriscar o "seu". Pensar em um país melhor, é viver essa mudança. É aceitar medidas para a maioria, que definitivamente não somos nós. "Nós", porque tenho certeza de que quem lê um artigo na rede, está longe dos que julgamos como realmente pobres. Então não adianta pensarmos como suiços. Não somos suiços!
Trazendo pro cotidiano, é fácil deparar-se com esses atos e descasos. O que mais se vê, são discursos moralistas e auto-valorizações profissionais escoradas em papinhos curriculares, aptos a trabalhos em grupo, união pra fazer a força. Besteira. Pessoas que não sabem dividir um espaço, ou dar a frente no trânsito, não sabem o que é isso. A autocrítica mentirosa em prol do individualismo. Todo mundo quer chegar na frente. Quer comprar o carro do ano primeiro, quer comprar a casa em condomínio fechado primeiro, quer dar a volta ao mundo primeiro. Mas ceder o lugar na fila seria incapaz. Revoltar-se com os fatos e cobrar um país melhor é moleza, mas ceder 10 minutos da sua escalada de sucesso seria demais.O individualismo é alicerce do capitalismo, mas pode não ser alicerce da nossa decadência. Uma autólise inconsciente. Não vamos deixar mais uma vez a solução para os outros. Vamos agir por nós mesmos, e assim faremos por todos. Ou botamos a mão na consciência, e paramos de agredir o nosso cotidiano, ou cada vez mais potencializaremos a nossa própria violência.
(Bruno Benjamim)
quarta-feira, 11 de julho de 2007
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